Sou putinha. Daquelas bem vagabundas e sujas. Daquelas que pedem para enfiar no cu e ainda ri. Não, eu nem sempre quis ser puta. Não estudei pra isso, mas foi pra onde o destino me levou. Dizem que é puta quem quer, mas acho que não é bem assim. Eu não sinto prazer quando estou dando. Sequer o dinheiro que a putaria me rende eu consigo usar, já que sou uma puta que não tem horário certo. Do jeito que está o Brasil, o jeito é ser puta mesmo. E ainda rir.
Eu até tento rir, às vezes. Sempre que aparece cliente, eu tento rir. Às vezes, não consigo. Mas dou tudo o que ele pede: dou o cu, a boceta, o ouvido, o nariz, faço boquete e ainda engulo a porra toda. Eu sei que ser tão devassa assim é prejudicial a saúde, que é uma agressão ao corpo, mas eu preciso do dinheiro. Viver como artista não paga as minhas contas e iria demorar a lucrar se eu decidisse investir na carreira de professor.
A vida de putinha não me deixa estudar para conseguir uma vida melhor. É o que tenho agora. Tenho um filho pra amamentar e ele precisa de mim. Talvez, se até o fim do ano não precisar mais dar de mamar, eu deixe a zona. Mas a zona vicia. Não, não gosto da zona que, aliás, é, uma zona em todos os sentido. Mas o dinheiro fala mais alto. Vicia. Não depender do dinheiro de ninguém é maravilhoso. Poder gritar “eu trabalho” e “a porra do dinheiro é meu” é maravilhoso. Mesmo que o dinheiro seja sujo.
A cafetina tenta me convencer que a vida de vadia é boa. Que devo lamber os beiços toda vez que um cliente goza na minha boca. Que, se eu fizer o sexo do jeitinho que o cliente gosta, eu vou crescer no puteiro. Mas sempre que olho pras outras colegas de zona, vejo todas no mesmo lugar. Ninguém cresce, ninguém muda, mesmo que peça à cafetina. “Eu preciso de você onde você está”, ela diz. Sem perspectiva pra quem é puta. A cafetina diz que teremos clientes melhores, que não precisaremos mais dar, que vamos ser apenas modelos e acompanhantes. E a gente, como putinhas obedientes, nos agarramos a essas mentiras . Um ano e meio se passou desde que comecei a vender o meu corpo e nada mudou.
Cada dia uma notícia nova. Dizem que mudarão nossos clientes, que teremos melhores quartos, mas nada muda. Os clientes só aumentam e não tem cu, nem boceta, nem boca, nem pica que aguente. E eu e as outras quengas damos o jeito que dá. O corpo doi, os órgãos baixos ardem, pegamos as doenças mais nojentas possíveis, mas damos o jeito de atender a todos os clientes. A cafetina às vezes nem sabe que atendemos certos clientes: “Vocês atendem o Bernardo-Diego-Daniel-Francisco?”, ela pergunta. Ela, uma mulher que já foi prostituta, não faz a menor ideia do que estamos fazendo. Às vezes eu acho que ela também se prostitui, já que acata qualquer coisa que os clientes peçam, até as coisas mais esdrúxulas.
E assim acordo mais uma manhã. Ou tarde. Ou noite. Vendo meu corpo se despedaçando para poder ganhar dinheiro. Sendo vadia para ter o que comer no fim do mês, para não ter que precisar de UPA ou posto de saúde. Para não ter que dar satisfação a gente que não deveria me julgar. Para poder ter algum lazer nas raras horas vagas.
Dizem que a puta é escrava do sexo. Engano. O que prende a gente nesse ramo é o dinheiro.
sexta-feira, 8 de julho de 2016
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Os perigos do bom escravo: quando um negro é racista
Tem sido comum as denúncias de famosos que são vítimas de racismo nas redes sociais. Lembro-me do caso da Maju Coutinho, maravilhosa apresentadora do Jornal Nacional. Também aconteceu com a Thaís Araújo, atriz e colega de empresa da Maju, e ainda com a também atriz Cris Vianna. Outro caso que veio à tona foi o de uma jovem negra de Brasília (que não é famosa) que foi vítima de ofensas racistas. A maioria das pessoas elogiavam a beleza da mulher, que é parecida com Lupita Nyongo. O mesmo aconteceu com as atrizes e com a jornalista da Globo. Mas, talvez incomodados com ofato de um negro ser elogiado, os racistas destilaram seu ódio na internet – talvez em uma tentativa de lembra-nos que o nosso lugar é na senzala, e não na casa grande, ao lado deles.
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
1998: Para Túlio, com amor
Oi, Túlio.
Perguntar como você está numa hora dessas vai soar como deboche. Sei que você está passando por momentos difíceis e, na verdade, eu sou a única pessoa que sabe - e sempre saberá - o que passa no fundo do seu coração. Algumas pessoas, principalmente da família, tentarão te convencer que conhecem você mais do que você mesmo. Não acredite nisso.
Perguntar como você está numa hora dessas vai soar como deboche. Sei que você está passando por momentos difíceis e, na verdade, eu sou a única pessoa que sabe - e sempre saberá - o que passa no fundo do seu coração. Algumas pessoas, principalmente da família, tentarão te convencer que conhecem você mais do que você mesmo. Não acredite nisso.
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
Entre panos e festas: sobre apropriação cultural
Este texto faz parte de um série que estou escrevendo sobre racismo e negritude. Confira os outros textos:
Um negro bonito
Túlio, o negro. Racismo e um pouco de cotas
No início deste ano, resolvi renovar o guarda-roupa. Mudar o meu estilo, me vestir melhor, com personalidade. Sempre busquei vestir coisas que, de certa forma, dissessem algo sobre a minha personalidade ou sobre a minha história. Sempre tive vontade de usar um adorno na cabeça, mas nunca tive coragem por uma série de fatores. Foi quando descobri que os turbantes estavam em alta.
Um negro bonito
Túlio, o negro. Racismo e um pouco de cotas
No início deste ano, resolvi renovar o guarda-roupa. Mudar o meu estilo, me vestir melhor, com personalidade. Sempre busquei vestir coisas que, de certa forma, dissessem algo sobre a minha personalidade ou sobre a minha história. Sempre tive vontade de usar um adorno na cabeça, mas nunca tive coragem por uma série de fatores. Foi quando descobri que os turbantes estavam em alta.
terça-feira, 23 de junho de 2015
Um negro bonito
Modéstia a parte, desde pequeno ouço que sou um “negro bonito” (modéstia mesmo, pois quem me conhece sabe que sempre tive autoestima baixa – mas aí é assunto para outra postagem). Eu, naturalmente, adorava – e adoro – receber elogios, por mais que achasse que as pessoas o faziam por educação. Também ouvia com frequência que era um “moreninho bonitinho”, ou “um mulato bonitinho” e, mais raramente – beeeeem raramente – “um negão bonito”. Se o objetivo era me convencer da minha beleza, não acho que tenho surtido efeito.
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quarta-feira, 25 de março de 2015
Túlio, o negro. Racismo e um pouco de cotas
Dizer “eu sou negro” pode ser redundante para quem me conhece. Tipo, está óbvio – literalmente, na cara – que eu sou negro. Mas não, não é tão simples assim. Assumir sua ancestralidade (sem os mimimis “mas eu também sou descendente de espanhóis…”) é um ato de fala. Quando eu digo que sou negro, eu assumo uma história, uma realidade um contexto que, por mais que achem que estão longe de mim, estou familiarizado. Portanto, sim, eu sou negro, independente de movimento, partido, direita, esquerda, acima, abaixo, cristão, macumbeiro, etc. (sobre questões religiosas, abordarei em outra postagem).
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quarta-feira, 30 de abril de 2014
A Linguagem do Coração
![]() |
| Pollyanna sempre ficava em poses charmosas para tirar foto |
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Doze coisas que aprendi em 2013
Fiquei assustado ao perceber que não fui o único a passar maus momentos em 2013. Amigos e colegas, por razões diferentes das minhas, também querem se livrar logo deste ano. Mas será que não dá para extrair nada de positivo nesses 365 dias? Provavelmente sim, mas acredito que as desventuras em série acobertaram as poucas coisas boas. Porém, é nos momentos de transtornos que geralmente extraímos algum aprendizado dessa vida difícil. Dentre os meus 25 anos, este foi, com certeza, o que eu tirei mais lições de vida. Aproveito este post para compartilhá-las com vocês. Não, não estou aqui para escrever autoajuda, apenas quero compartilhar o que adquiri e ver se o leitor se identifica – ou não.
1. É preciso ser muito corajoso para não desistir de um objetivo. Mas é necessária coragem extrema para desistir. Às vezes temos que abandonar uma meta para que a vida possa continuar e tomar um rumo melhor.
1. É preciso ser muito corajoso para não desistir de um objetivo. Mas é necessária coragem extrema para desistir. Às vezes temos que abandonar uma meta para que a vida possa continuar e tomar um rumo melhor.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Cartas, vídeos e hipocrisia: as Gianas e Júlias de cada dia
Fui estudante de um
antigo e tradicional colégio do Rio de Janeiro. Os uniformes não
eram dos mais bonitos, não dava muita brecha para a vaidade dos
alunos. Patrícia (nome fictício) ingressou na escola já causando
frisson por onde passava: tinha lindos cabelos loiros e anelados e
olhos azuis, além de já ter o corpo bem formado em relação a
maioria das garotas. Era muito bonita e sabia disso, logo não dava
atenção a qualquer pessoa – talvez uma forma de autopreservação.
Isso, é claro, atraiu a inveja das meninas e o recalque dos meninos.
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013
O Anjo
Parece
difícil conceber que uma pessoa tenha sido “feita para o amor, da
cabeça aos pés”, conforme canta Ana Carolina, em “Rosas”. Em
tempos em que o amor são às coisas, e não às pessoas, é um
portento alguém que seja capaz de tanto amor. Mas essa pessoa
existe. É um anjo. Suas asas são invisíveis, seus cabelos não são
loiros, nem enrolados e não tem olhos cor de céu. O céu é em sua
alma.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
A Bruxa
Ela não
é corcunda, não tem a pele verde nem uma verruga na ponta do nariz.
Não usa preto (segundo ela, não pode se vestir com esta cor) nem
chapéu pontiagudo. Sempre que a vejo está com uma vassoura, mas
certamente não a usa para voar. Varinha de condão? Harry Potter?
Acho que ela nem sabe do que se trata.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
O Assustador Mercado de Trabalho
O mercado de trabalho é algo extremamente assustador. Não só por ser um dos primeiros indícios da chegada da fase adulta, que por si só já é aterrorizante, mas pelo forma como ele é cruel e enlouquecedor. Eu acho que todos nós criamos um alter ego quando temos que encará-lo. Não adianta tentar listar arquétipos pré-definidos de profissionais, acho que são muitos “eus” diferentes, muitos totalmente diferentes da real essência da pessoa. O mercado de trabalho é como um monstro meio bizarro, que quer devorar todos (com toda a ambiguidade que a expressão oferece) e criamos personagens super-armados para enfrentá-lo. O problema é que, quando a gente acha que venceu, ele te dá uma rasteira e fim de jogo. Game over. Sorte que temos muitos “continues”.
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quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Não foi dessa vez. E agora?
O que fazer quando um grande plano não sai como a gente esperava? Ou pior: ele dá completamente errado? Quando as coisas não saem do jeito que planejamos, sempre ficamos com a sensação de que não batalhamos o suficiente ou que Deus (ou o Destino, de acordo com a fé de cada um) não foi bom o suficiente para nós. O que precisamos fazer depois disso?
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Família perfeita é só em porta-retrato
Os dizeres são sempre os mesmos: “Irmão é o amigo que você vai ter para sempre”, “Temos que honrar pai e mãe”, ou então “Mãe é amor”. Tudo mentira. Existe essa cobrança social de que temos que enxergar nossos parentes como “porto seguro”. Sinto muito, eu dou parabéns aos que tem a família perfeita e podem cantarolar por aí essas palavras. Não é o meu caso, uma vez que boa parte dos meus problemas teve origem na minha família. Os ditados que eu prefiro usar são “Parente é serpente” e “Família só é bonita no porta-retrato”.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Amor além da imaginação
Muita gente estranha o sucesso que séries de livros como Crepúsculo tem feito. Eu não estranho. Recentemente li o primeiro livro de uma série chamada Os Imortais. A história é engraçadinha, bonitinha, tem ação e viagem na maionese. E, é claro, uma relação fora do normal [spoiler aqui]: uma menina problemática que se envolve com o cara perfeito, que tem quase 600 anos. Não, não é um vampiro, é um alquimista que conseguiu produzir o Elixir da Imortalidade [fim de spoiler].
sábado, 20 de agosto de 2011
Hino a Thetis (poema)
Thetis dos pés prateados
Tu és bela, mas poucos te vêem
Pois te escondes nas profundezas
Do mais distante Oceano
Tu és bela, mas poucos te vêem
Pois te escondes nas profundezas
Do mais distante Oceano
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Jogando a dois
Eu queria mesmo entender porque as relações humanas a dois têm que ser vividas como se fossem um jogo. Porque as pessoas simplesmente não facilitam o processo das relações dizendo o que querem, ou evitando atitudes que podem ser mal interpretadas. Será que é difícil entender que nem sempre estamos lidando com psicopatas, stalkers, ou mulher/homem objeto?
terça-feira, 19 de julho de 2011
Da Katábasis (ou Saindo da Pior)
Katábasis é uma expressão grega composta por ‘’katá’’, baixo, e ‘’bainis’’, ir, andar. Portanto, a palavra significa ‘’ir para baixo’’, ‘’descer’’. Tal verbete é utilizado na mitologia grega para uma tarefa que todo o herói cumpria: a descida ao Hades, o Reino dos Mortos.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Pra titio. Sim.
Preciso parabenizar algumas pessoas. As que passaram esse dia 12 acompanhado. Eu confesso que senti uma pitadinha de inveja dos que acordaram ou dormiram de conchinha, receberam ou fizeram café na cama, tiveram um almoço ou um jantar romântico, e, é claro, fizeram sexo como se não tivesse amanhã. Não aquela inveja do tipo ‘ai, tomara que morram’, mas do tipo ‘eu queria também’.
domingo, 22 de maio de 2011
Poesia: Baal
Das areias de Canaã
Das águas do Eufrates
Esculpi tua imagem
Baal, senhor do meu universo
Em meu coração
Jaz teu altar
Para sempre te adorar
Das águas do Eufrates
Esculpi tua imagem
Baal, senhor do meu universo
Em meu coração
Jaz teu altar
Para sempre te adorar
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